Essa semana postaremos textos espertíssimos do jornalista Marcelo Almeida sobre grandes trilhas sonoras do cinema. Marcelo resolveu comentar sobre ótimas trilhas em grandes filmes e ótimas trilhas em filmes nem tanto. Hoje temos um clássico das telas. Para ler a primeira parte, clique aqui. Divirta-se!
Paris, Texas
Poucos filmes tem uma tomada de abertura tão linda e aflitiva quanto "Paris-Texas" do cineasta alemão Win Wenders.
A câmera aérea vagando pelo deserto americano com aquelas formações típicas de canyons, transmite uma vastidão do mundo e uma sensação de insignificância impressionantes a qualquer observador. Como poucas metáforas poderiam dizer. A gente chega quase a sentir o calor, a poeira e a solidão que cincundam Travis (Harry Dean Stanton), o homem que caminha por aquelas paragens.
Bem falado desde o lançamento, "Paris-Texas" chegou a ser sucesso de público e crítica. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes além de outros prêmios mundo afora.
Com uma belíssima fotografia por parte de Robby Muller, o filme tem ritmo lento e enquadramentos lindos de serem vistos. É angustiante, beirando ao claustrofóbico em vários momentos.

O filme narra a história de um homem dado como desaparecido há muito e que volta ao convívio familiar e reencontra o filho. Ambos saem à procura da mulher dele e mãe do garoto (a maravilhosa Nastassja Kinski) que também havia desaparecido para trabalhar como stripper.
Boa parte do sucesso das cenas se dá devido ao perfeito casamento da história com a maravilhosa trilha sonora composta pelo genial Ry Cooder.
Cooder é uma cara legal, já tocou com Captain Beefheart, John Lee Hooker, trabalhou com os Stones no auge criativo deles, trabalhou como músico de estúdio, criou trilhas sonoras geniais como a de "Crossroads" e "Streets of Fire". Participou do projeto Buena Vista Social Club.
Nesta, ele usou e abusou do road blues instrumental com slide guitar para potencializar ainda mais a sonoridade da trilha angustiante.
É como se pudéssemos sentir o revoar da poeira sufocante do deserto entrando pelas narinas. Apenas uma das canções é cantada, "Cancion Mixteca". Uma mistura perfeita das culturas mexicana com o blues sulista que lembra (e muito) antecipadamente o que seria uns lampejos do próprio Buena Vista anos depois.

Meus destaques são para a faixa "Paris-Texas", para a maravilhosamente linda "She´s Leaving The Bank" que remete diretamente aqueles southern rock geniais à la Lynyrd Skynyrd e para a angustiante "On The Couch". Todas elas têm em comum o fato de que são músicas para serem ouvidas em momentos de reflexão, de paz, de questionamento.
Reza a lenda que até o U2 teria se inspirado no filme e na trilha de Paris-Texas para compor o maravilhoso álbum "The Joshua Tree". De fato, existem algumas semelhanças no visual (a capa dos irlandeses tem uma foto da banda no meio do deserto) e na parte musical, onde existem algumas faixas que corroboram bem com essa idéia como "Running To Stand Still" que é influência pura de Ry Cooder.
O fato é que Paris-Texas é um belíssimo filme que mostra através de imagens maravilhosas a imensidão do deserto e a estranha pequenez da alma humana. Uma metáfora para a insignificância do micro e macrocosmo do dia-a-dia.
E, que ainda tem um trilha sonora perfeita, que cai bem tanto num Ipod ou para um som automotivo, desde que, claro, sua viagem seja em direção a alma.