Por Marcelo Costa
Filme responsável pela abertura da 33º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “À Procura de Eric” (Looking For Eric, 2009), carrega um certo “hype” – mescla de falatório exacerbado a respeito de seu conteúdo que gera uma certa propaganda – principalmente por conta de um de seus atores principais, Eric Cantona. Jogador de futebol francês radicado na Inglaterra, Cantona fez uma carreira histórica no Manchester United, sendo pivô da volta por cima do clube em meados dos anos 90.
Já no auge, o “Rei”, como era tido por seus fãs, tinha um temperamento difícil, sendo lembrado até hoje por ter dado uma voadora em um torcedor do time adversário em pleno jogo. Após a introdução necessária, resta dizer que este filme foi feito nos moldes para Eric Cantona, já que este é um projeto feito para aproximar os fãs do astro.

A direção ficou a cargo do mestre Ken Loach. Há mais de 40 anos na área, Loach é um dos mais influentes e respeitados cineastas ingleses, não só pelo grande número de produções, mas por peitar grandes corporações e humanizar personagens pouco favorecidos pela sociedade em seus filmes. Mesmo não sendo muito popular aqui no Brasil, sua narrativa talvez tenha um equivalente, com o paranaense Sérgio Bianchi. Quem viu, sabe por que ele é tido como o “cineasta maldito”.
O enredo de “À Procura...” nos apresenta Eric Bishop, um homem de meia-idade que passa por maus bocados quando sua vida pessoal passa a interferir na profissional. Carteiro das ruas de Manchester e padrasto de dois filhos adolescentes da sua segunda mulher, Eric tem que cuidar da casa sozinho e sofre nas mãos dos enteados que não o respeitam.

Torcedor fanático de futebol, um pôster em tamanho real de Eric Cantona em seu quarto dá a ideia da devoção quase religiosa que ele tem por seu ídolo. Mas as coisas complicam ainda mais para Eric quando ele, avô, aceita cuidar da neta que a filha da sua primeira mulher, Lily, teve.
É em Lily que Eric vê uma saída para isso tudo. Antes um amor não correspondido da parte dele, Eric a abandonou há muitos anos atrás com uma filha para criar. Agora a situação está invertida, já que é ele que não sabe como se aproximar. A relação entre os dois é conturbada, o que faz nosso carteiro buscar respostas nas ervas que seu filho esconde no quarto. É quando ele passa a ver e conversar com Eric Cantona em carne e osso. Seu ídolo transforma-se em mentor e ajuda Eric a superar desafios simples de não ter que lidar só com as tarefas domésticas, e também as amorosas, quando o assunto é Lily.
Não fosse um de seus enteados se envolver com um ex-presidiário barra pesada, o filme no geral não passaria de uma esquete moderna sobre como pais solteiros lidam com o fato de serem padrastos e tentam conquistar suas ex-mulheres. Mesmo assim, levando em consideração que este filme foi feito para Eric Cantona, talvez Kenneth Loach não tenha tido muita sorte com este roteiro pré-fabricado.

É visível que o estilo sintomático presente em todas suas películas está praticamente anulado neste, que prefere explorar muito mais as divagações hamletianas de seu personagem central – onde um homem passa a sofrer das complicações do universo feminino. Mesmo assim, vale para quem ainda não descobriu este interessantíssimo diretor.