Por Natália Albertoni
Amigável e sádico. Utópico e perverso. Destemido, mas vítima de si mesmo. Uma confusa e complexa concentração de paradoxos. Esse é Henning Albert Boilesen (1916-1971) que será apresentado nas telonas a partir desta sexta-feira (27).
Vencedor do prêmio de melhor filme no festival É Tudo Verdade 2009, Cidadão Boilesen, longa de estreia de Chaim Litewski, expõe o envolvimento velado de civis na repressão durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) e se soma à safra de longas nacionais que tem insistido em recuperar os anos de chumbo na última década.
O ponto de partida é a vida do empresário dinamarquês radicado no Brasil, que ocupou a presidência da Ultragás nos anos 70 e foi acusado pela esquerda de manter relações com a CIA, além de financiar a tortura. Foi assassinado no dia 14 de abril de 1971, vítima de uma ação armada realizada em parceria entre a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes).
Elo entre civis e militares, Boilesen foi tesoureiro da Operação Bandeirante (Oban), organização ilegal que funcionava como centro de informações, investigações e tortura que tinha o objetivo de combater organizações armadas. Criada em junho de 1969 pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e o 2º Exército, operava nas dependências de um distrito policial da cidade.
Para construir o documentário, o diretor mantém o padrão do gênero cinematográfico. Mescla depoimentos de ex-militantes, militares, historiadores, com imagens de arquivo da época bem selecionadas, outras do acervo da família e também de ficções que retratam o período, como Pra Frente Brasil (Roberto Farias, 1983) e Batismo de Sangue (Helvécio Ratton, 2007).
Carlos Eugênio Paz, ex-dirigente da ALN que comandou a emboscada, e Erasmo Dias, coronel reformado que organizou as primeiras caças aos comunistas a partir de 1968, fazem contrapontos interessantes. O discurso de ambos é quase apaixonado e traduz a divisão política existente na época. Outros nomes de peso como Fernando Henrique Cardoso, dom Paulo Evaristo Arns, Jacob Gorender, Jarbas Passarinho e o coronel Carlos Brilhante Ustra dão suas contribuições.
O filme peca em pequenos detalhes que o faz perder o fôlego e, por conseqüência, não deve atrair aos cinemas, a quantidade de espectadores que deveria. A narração em off (feita pela voz de alguém que não aparece) facilita a linha narrativa, mas lembra a voz dos mestres que fazem seus apontamentos no quadro negro. O recurso fácil do povo-fala na abertura e finalização não surpreende. A sequência longa e alternada, mas nem sempre identificada com legenda, de entrevistados e imagens de cobertura é confusa, não prende, dispersa.
Apesar disso, Litewski toca num ponto pouco explorado, o pacto civil-militar selado com dinheiro que fortaleceu o aparato repressivo e sua “operação limpeza”, que sob a bandeira de conter a ação contagiosa do comunismo no Brasil, seqüestrou, prendeu, torturou e assassinou opositores do regime.
Como os arquivos secretos da ditadura seguem confidenciais, independente de quem chega ao Planalto, a história continua a ser documentada por iniciativas como esta, que dependem de vasta pesquisa e da sincera, e às vezes romanesca, memória dos outros. Nesse contexto, Cidadão Boilesen é obra historicamente importante porque contribui na compreensão de um período ainda turvo e traumático para o país.
Sobre o diretor
Chaim Litewski nasceu no Rio de Janeiro em 1954 e graduou-se em cinema na Polytechnic of Central London, na Inglaterra. Assinou trabalhos para a TV Globo (Brasil), Channel Four / BBC (GB), RAI (Italia), CBC (Canadá), NBC (EUA) e RTP (Portugal) e, hoje, é o chefe do departamento de TV nas Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque.
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