Natália Albertoni
Coberto por jaqueta e calça pretas, óculos escuros e cabelos longos que escondem parcialmente seu rosto, Michael corrige insistentemente um de seus músicos. O tom está errado, o tecladista não está seguindo a melodia original e, preocupado, ele alega que não é isso que seu público quer ouvir. Há um princípio de discussão porque o homem não consegue consertar o próprio erro e, com um fiapo de arrogância, o cantor o relembra que os ensaios existem para corrigir erros. “Uma hora você vai acertar”, diz.
A cena descrita acima faz parte de This is It, documentário dirigido por Kenny Ortega e criado a partir de mais de 100 horas de filmagens de bastidores dos últimos ensaios do rei do pop para a turnê homônima de 50 shows que seria apresentada em Londres, no final de julho. A pré-estreia do filme aconteceu ontem em 30 cidades do mundo, inclusive São Paulo e, hoje, está disponível em mais de 200 salas pelo Brasil.
Repleto de cortes bruscos que mesclam o melhor do show que não aconteceu e blacks que enfatizam as pausas e silêncios exigidos por Michael em suas apresentações, “This is It” é a tentativa de promover o reencontro entre fãs e a essência do eterno popstar.
Durante longos 112 minutos, o público assiste a magia dos passos precisos e ainda surpreendentes de um corpo em decadência. Seu perfeccionismo e áurea infantil arrancam risos da plateia que ora balança as pernas para acompanhar o ritmo dos maiores sucessos do rei, ora se surpreende com atitudes descabidas.
O homem magro de aparência frágil ri, dança, se diverte, reclama, pede desculpas. É cativante até quando é chato. Ao fim de “Black or White”, faz uma jovem guitarrista dedilhar repetidas vezes notas mais e mais altas até que pronuncia: “é o seu momento de brilhar. Nós estaremos lá com você”.
Como uma criança teimosa, arteira, confunde seus subordinados em busca da perfeição e dá seus pitacos com a mesma vontade que chupa um pirulito. Aos poucos se solta e deixa de ser o personagem intocável, irreal, mítico conhecido dos tablóides, para resgatar sua humanidade diante de olhos atentos.
A montagem busca dar vida ao que seria o último espetáculo performático do cantor que se entrega sem limites. Joga-se ao chão, pula, desliza pelo palco, canta com sentimento e sinceridade. A polêmica canção inédita que na verdade foi escrita há mais de 18 anos e tem co-autoria de Paul Anka passa sem estardalhaço. Mas é aproveitada para imortalizar uma mensagem clichê, mas não desimportante, do menino-homem: é preciso cuidar do planeta. E não devemos esperar por ninguém. A mudança deve começar dentro de nós.
Completam o elenco todos os integrantes envolvidos na produção e os dançarinos que no início do longa dão uma série de depoimentos emocionados em que declaram seu amor e admiração pelo dono da festa, mas depois se tornam secundários e extensões de Michael Jackson.
Se a salvação da sua carreira foi a própria morte, “This is It” materializa sua ressurreição. Ele dirige quem está a sua volta. Músicos, dançarinos, equipe de filmagem, até o próprio diretor da turnê. Estranho pensar que mal conseguiu conduzir a própria vida. Agora, mais uma vez protagonista, ele se despede de braços abertos para finalmente viver para sempre. É isso!
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